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#28 | OUTUBRO 2009
RITA MOREIRA
Directora Executiva da Navegar
"Mesmo uma instituição sem fins lucrativos, em tudo o que faz deve agir como uma empresa"

O que levou à criação da Navegar? Quais os vossos objectivos sociais e estratégicos?
A Navegar nasceu oficialmente em Junho de 2008. Desde 2003 que a paróquia do Parque das Nações tem uma geminação com outra paróquia de São Tomé e Príncipe, em Santana. Porém, a comunidade do Parque das Nações considerou importante criar uma associação humanitária com um enquadramento legal, que permita que pessoas que não estão ligadas à igreja possam também ajudar. Esta associação tem essencialmente duas vertentes de actuação: esta muito concreta em São Tomé e Príncipe (a razão pela qual nasceu) e depois o trabalho social junto da comunidade do Parque das Nações.

Já têm projectos planeados, com uma perspectiva a curto e médio prazo?
Em Portugal já somos reconhecidos como IPSS desde Junho deste ano, enquanto em São Tomé e Príncipe queremos ser reconhecidos também como Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD). No caso português, temo-nos deparado com a dificuldade de não haver um estudo a nível social. Os últimos censos datam de 2001 e neste bairro a população sofreu um fortíssimo incremento. Como tal, os dados estão completamente desactualizados. Já tentámos ver junto das mais diversas entidades oficiais e não existe nenhum estudo. Não sabemos o número concreto de famílias monoparentais, quantos casos de divórcio, deficientes, etc. Sabemos que à partida não existirão muitos idosos, mas poderá suceder que estes estejam sozinhos em casa e não existem infraestruturas e cuidados pensados especialmente para eles. Queremos igualmente saber que tipo de instituições é que já existem integradas nesta zona, pois não nos interessa fazer uma réplica daquilo que já se encontra no terreno.

Muitos dos especialistas nesta área referem-se à exigência de inovar nas políticas sociais. O que é que a Navegar apresenta como inovador no seu projecto?
Trabalhar com esta comunidade do Parque das Nações faz com que tenhamos mesmo que ser inovadores. É uma população que se caracteriza por ser composta essencialmente por quadros médios/superiores, que trabalham em grandes empresas e estão habituados a lidar com projectos de qualidade. Mesmo uma instituição sem fins lucrativos deve agir em tudo como uma empresa. Portanto, qualquer documento que apresente – inclusivamente um flyer ou cartaz – tem que demonstrar qualidade. E a inovação, de facto, é extremamente importante para o sucesso de qualquer instituição que nasça nestes tempos. Por exemplo, para São Tomé e Príncipe vamos desejar que pessoas que estão no activo, inclusivamente famílias, possam disponibilizar duas ou três semanas das suas férias de forma solidária. Nós garantimos o alojamento e, tendo em conta as características profissionais e pessoais de cada um, são inseridos no trabalho comunitário, concretamente na ilha de São Tomé.

Como é a vossa metodologia de gestão? Como está estruturada a Navegar?
A associação é ainda muito pequena. Quando partirmos para uma valência a nível social, outros modelos de gestão terão mais razão de ser, pois é impossível funcionar exclusivamente com voluntários. Não temos fins lucrativos, mas já desde Fevereiro que damos aulas de música pagas. Essas receitas são encaminhadas para projectos que a associação tem. A partir de Setembro começámos a contratar pessoas, porque o volume de crianças deixou de ser suportável para voluntários. Quando desenvolvermos um protocolo de cooperação com a segurança social para desenvolvermos uma valência, é inevitável termos de contratar pessoas.

Como é o vosso relacionamento com as empresas da zona? Têm apoios?
Sendo só uma associação sem fins lucrativos, é muito difícil negociar com empresas, porque estas acabam por não ter qualquer benefício. Obviamente que a partir do momento em que temos estatuto de utilidade pública, isso abre-nos um leque. Podemos chegar a uma organização, apresentar um projecto concreto. Esta, patrocinando ou ajudando de alguma forma, tem contrapartidas e benefícios fiscais. Neste momento estamos também a desenvolver projectos ligados a São Tomé e Príncipe e é com essa perspectiva que estamos a ir junto das empresas.

Apesar da vocação da Navegar para o contacto com os cidadãos carenciados de São Tomé e Príncipe, também têm uma grande preocupação com Portugal. Analisando a situação, qual a importância do serviço social no nosso país?
É extremamente importante e posso dar-lhe um exemplo disso: estamos a fazer há algum tempo uma campanha de recolha de roupa. Esta campanha não foi pensada para a população tradicionalmente pobre mas para todas aquelas pessoas que, a propósito da crise actual, estavam habituadas a dar e não a receber, e que agora se viram sem emprego. Se não forem as instituições de solidariedade social, as pessoas acabam por não ser devidamente auxiliadas nem conseguem ultrapassar esta situação.

Muitas destas instituições de solidariedade social não acabam por ser sugadouros de fundos económicos, em detrimento de uma metodologia coerente e uma gestão correcta?
Como em tudo na vida, há bons e maus profissionais. Eu acho que é importante haver transparência e a Navegar disponibiliza no seu site o relatório de contas. Não é obrigatório fazê-lo para a comunidade mas, no nosso caso, temos consciência que há muitas instituições que sofrem desses males e que são vistas da forma que referiu. Como tal, tentamos ser totalmente transparentes, daí disponibilizarmos esses documentos oficiais.

Como vê a política social em Portugal?
De há alguns anos para cá tem-se sentido um aumento na preocupação pela responsabilidade social, por parte das empresas. Acho que com a crise generalizada é inevitável que, a nível político, seja dada maior importância a este assunto. Tem-se vindo a fazer um bom trabalho. Obviamente que pode sempre ser melhor, mas nos últimos anos esta causa vem ganhando maiores proporções. Há um ónus, pois houve bastantes programas de financiamento que foram cortados. Mas as pessoas estão bastante mais sensibilizadas que há alguns anos para estas questões.

A profissionalização deste sector é fundamental para a correcta alavancagem dos seus ideais?
A gestão de uma instituição sem fins lucrativos é naturalmente orientada para as pessoas. Porém, tudo o que respeite à sua metodologia, mesmo a comunicação organizacional e o relacionamento com os media, deve ser o mais semelhante possível a uma estrutura empresarial. Em conclusão, sem dúvida que há uma grande necessidade de profissionalização no sector social.

Não tem receio que a Navegar seja demasiado associada à Igreja Católica?
Relativamente a São Tomé e Príncipe, é inevitável. Eu própria já tenho contactado com outras associações que fazem trabalhos humanitários (essencialmente associações juvenis) e que garantem nada ter a ver com a igreja. Mas quando os questionam quanto aos seus contactos em África respondem invariavelmente que o fazem com entidades católicas. Quem quer trabalhar num qualquer país africano, quase inevitavelmente terá que colaborar, não só com a Igreja Católica, mas também com outras congregações religiosas locais. Em Portugal não creio que assim seja.

Têm algum apoio do Estado português? De onde provêm os vossos apoios económicos?
Não temos apoio nenhum do Estado português. Existem fundos, concretamente para o trabalho em São Tomé e Príncipe. Até Junho – quando obtivemos o estatuto de utilidade pública – estávamos afastados da maioria dos programas, tanto os governamentais como os não-governamentais. Desde então, abriram-se imensas portas, para começarmos a concorrer a esse tipo de financiamentos. No ano que passou foram obtidos meios financeiros através dos donativos, quotas dos associados, aulas de música e de alguns apoios empresariais.

Biografia
Rita Moreira é fundadora e directora executiva da Associação Navegar, desde Junho de 2008. Anteriormente, foi gestora de recursos humanos na Startpeople e técnica de recursos humanos na Axa Portugal. Licenciada em Gestão de Recursos Humanos pelo ISCTE, tem também um mestrado executivo em Gestão de Projectos, pelo INDEG/ISCTE.

 
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