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#30 | FEVEREIRO 2009
JOÃO ERMIDA
Consultor Financeiro e Empresário
"Se a contribuição de quem ganha anualmente 300 milhões de euros for de 200.000€, parece-me verdadeiramente baixo"

Como surgiu a sua preocupação pela responsabilidade social, em particular junto dos mais idosos?
Esta é uma preocupação que devia ser comum a todos nós. Não concebo um mundo em que eu esteja muito bem e outras pessoas estejam muito mal. Poderei dizer que tudo isto surgiu quando fui viver para o Rio de Janeiro, uma cidade cheia de contrastes. Os meus pais também me educaram em valores, nos quais a ajuda ao próximo faz sentido. Eu sempre tive uma preocupação social mas fazia-a de uma forma muito egoísta. Enquanto estava no mundo financeiro, essencialmente dava dinheiro. Quando o abandonei em 2003, nas funções que exercia então, considerei que continuar a dar só dinheiro é um meio mas teria que fazer mais do que isso. O padre que me tinha casado era director de um Centro Social Paroquial e nessa altura fui falar com ele, o qual considerou que poderia entregar refeições. Entretanto, o padre morreu e o que o substituiu desafiou-me a ir para a direcção tratar da parte financeira. Eu disse-lhe para estar descansado, que desse ponto de vista eu estaria à vontade para o ajudar.

Como foi conhecer a realidade no terreno?
Aí começamos a perceber o que está bem e mal, onde é que existem, ou não, apoios. E entendemos que há um grave problema no universo dos países latinos (e, se calhar, também em alguns países anglo-saxónicos). Nós temos um crescimento brutal da população depois da segunda guerra mundial. E toda a população, supostamente, deveria ter morrido aos 65, 70 anos, que era a esperança média de vida das pessoas na época. Mas estas pessoas passaram a morrer aos 90, 95 anos. Num país como o nosso, com um défice na ordem dos 9% do PIB, a capacidade de pôr mais dinheiro do Estado no sector social é deveras complicada. Na minha opinião, nós temos um país extremamente bem preparado para a infância, mas quando muitos dos nossos idosos ganham apenas 300€ ou 400€, esse é um problema grave. Quando eu comecei a analisar os idosos que se inscreviam para o Lar de São José, na Ajuda, verifiquei que a realidade ainda é pior do que algum dia poderia pensar. Nós estamos a pedir a pensão inteira a idosos que ganham muito pouco e para quem a vida se torna num fardo. Hoje, aquilo que me interessa fazer no sector social é um projecto que estou a liderar com algumas pessoas, ainda embrionário, apesar de já ter comprado em Sintra o terreno para o efeito. Através de uma fundação que estamos em vias de lançar, iremos contribuir com um lar de terceira idade, que apenas aceitará pessoas cujos rendimentos não sejam superiores a uma vez e meia o salário mínimo nacional. Queremos começar por Sintra e, a seguir, ir para outros concelhos do país, onde possamos actuar nesta questão.

As empresas, cada vez mais, assumem uma preocupação pela responsabilidade social. Mas será que estas têm real interesse ou, na prática, não há resultados concretos e tudo se resume a marketing social?
O mundo empresarial tem muita dificuldade em entender como é que isto pode ser feito. Inicialmente, a responsabilidade social era, entre outros aspectos, a preocupação ambiental, com o objectivo de tornar o mundo mais “verde”. Passou-se a ser protector de alguma coisa, um animal, planta, etc. Como é óbvio, isso é extremamente interessante. Mas, uma empresa não pode dizer que é socialmente responsável apenas porque deu 20.000€ para uma associação ou distribuiu esse valor por várias instituições, referindo no seu relatório e contas que foi essa a sua contribuição. Temos outros casos, de empresas que referem que a sua contribuição social foi a entrega de 8.000 vacinas para a gripe ou 3.000 caixas de comprimidos. Quando se vê o relatório do Banco Alimentar, é possível verificar quais as empresas que contribuíram naquele ano e chega-se à conclusão que, no conjunto, foi uma coisa muito pequena. Ou seja, se a contribuição de quem ganha anualmente 300 milhões de euros for de 200.000€, parece-me verdadeiramente baixo.

Há ainda muito por fazer, nesta área...
Creio que o mais importante é levar a que as próprias empresas motivem os seus funcionários, para que façam parte dessa responsabilidade social. O facto de uma empresa apresentar anualmente no seu relatório e contas a distribuição de 50.000€ por várias instituições, ou se mobilizar os seus funcionários a, num fim-de-semana, efectuarem a limpeza de uma mata, é obviamente um trabalho social, porém um fenómeno muito isolado. Aquilo que vejo é que a verdadeira responsabilidade social ainda não existe. Encontramos, sim, pequenas formas de auxílio, como por exemplo a selecção e distribuição de 70.000€ em bens alimentares. Como é óbvio, não vou menosprezar o que está a ser feito. Agora, é necessária uma muito maior contribuição do sector empresarial para todo este fenómeno.

Falou há pouco da contribuição da Igreja. Não lhe parece que acaba por ser a Igreja Católica e outras congregações religiosas a substituírem o Estado na sua obrigação social perante os mais idosos?
Infelizmente, isso é verdade. A Igreja tem um papel extremamente activo mas pelo qual não tem tido benefício nenhum. Esta função é muitas vezes feita por padres, cuja vocação supostamente é religiosa e não o trabalho social. É muito difícil que se peça a um professor de filosofia que, de repente, se torne num gestor de empresas, a gerir 80 funcionários, 300 utentes, durante 90% do seu tempo disponível. Depois, daquilo que é feito pela Igreja Católica e pelas outras congregações religiosas, muitas só aparece a parte que é negativa. Do trabalho feito no dia-a-dia, não se fala. Nos países latinos, o conceito de que o Estado deve ocupar-se de tudo é deveras complicado. Todos nós sabemos que está na Constituição destes países, em todos eles, que é o Estado que trata do welfare das pessoas. Porém, o Estado não é bom gestor.

Portanto, a adopção de um modelo como o nórdico é muito improvável em Portugal?
Na Escandinávia, por exemplo, pagam-se 70% de impostos para que o Estado se ocupe dos problemas dos cidadãos. Em países como os latinos, queremos pagar poucos impostos, há muita fuga fiscal, o que significa que o Estado tem que encontrar bolsas de dinheiro para equilibrar as contas. É um círculo vicioso. A Suécia tem uma população tão envelhecida como a nossa mas as autarquias e o Estado ocupam-se de modificar as casas das pessoas, através do dinheiro dos impostos, para que continuem a viver em condições. Isto também poderia ser feito em Portugal, só que não pagamos os impostos que pagam os suecos, não temos a disciplina fiscal nem o equilíbrio. Restringimo-nos ao aparecimento de entidades que façam esse trabalho. É o modelo latino.

A crise económica também se faz sentir na quantidade de idosos que acorrem a estes centros? Ou ainda existe muita pobreza encapotada?
Eu acho que a pobreza já estava encapotada há alguns anos. Temos valores de pensões de 300 ou 350€, que, depois de pagar os medicamentos, assistência do lar ou a renda da casa, pouco ou nada sobra para os idosos, apenas lhes resta comer uma sopa ao almoço e ao jantar a mesma coisa, mais um pouco de pão. Este é um problema que se arrasta há já muitos anos e agravou-se, como é óbvio. Mas está a atingir uma faixa complicada, porque se antes estávamos a falar dos idosos mais desfavorecidos, agora atinge pessoas que, com 50 ou 60 anos, perdem o seu emprego e não tem quaisquer perspectivas de vida. O problema da pobreza encapotada ou não totalmente falada já existia, tem muitos anos e não se modificou, chega é a faixas etárias mais novas.

Biografia
João Ermida é, actualmente, consultor financeiro e empresário, colaborando de forma independente em diversos projectos financeiros, com especial ênfase na direcção estratégica dos mesmos. Entre Setembro de 2003 e Maio de 2004 foi presidente da Comissão Instaladora do Operador de Mercado Ibérico de Energia. Durante uma década (de 1993 a 2003), exerceu funções no Grupo Santander, mais concretamente como administrador do Banca Santander de Negócio Portugal, para além de vice-presidente do Banco Santander Brasil (1997 a 1999) e tesoureiro global do Grupo Santander (1999 a 2003). Foi, ainda, membro da equipa de mercado de capitais do Citibank Portugal, no período que decorre entre 1988 e 1993.

 
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