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# 05 | 21 de Dezembro 2007
 
 
 

João Paulo Coelho Marques
“As razões para a emergência das incubadoras de empresas, residem em ‘falhas do mercado’”

 

Qual o papel que as Universidades desempenham na dinâmica da incubação de empresas?
No contexto da economia e sociedade baseadas no conhecimento, a Universidade moderna tem vindo a assumir progressivamente, um papel mais interventivo no desenvolvimento económico e social das regiões onde está inserida. Deste modo, os três papéis adicionalmente assumidos pelas instituições académicas – educação/formação, Investigação e extensão universitária – têm sido desenvolvidos e organizados com vista a responder aos desafios de uma sociedade e uma economia mais globalizadas. Este dinamismo gerou novos modos de intervenção, nomeadamente a prestação de serviços à comunidade, a promoção de Parques de Ciência e Tecnologia e de Incubadoras de Empresas e de Tecnologia. Neste sentido, a Universidade tem, naturalmente, tido a iniciativa de organizar e promover Incubadoras de empresas e/ou Tecnologia, sozinha ou em associação com entidades diversas. O objectivo é pois, disponibilizar um conjunto de meios e recursos no sentido de fomentar o surgimento de novas empresas empreendedoras, especialmente as provenientes do ambiente académico, e por conseguinte criar um mecanismo que facilite a comercialização dos resultados da I&D académica. 

Quais as especificidades das incubadoras portuguesas?
Portugal, tal como muitos países europeus têm, desde os anos oitenta do século XX, empreendido incubadoras de empresas e iniciativas semelhantes. No caso português, as incubadoras assumem uma grande diversidade relativamente às suas formas. Parte desta diversidade deve-se aos diferentes objectivos e expectativas dos seus promotores e operadores. Existem actualmente muitas unidades de incubação de empresas, promovidas por Universidades, Instituições de I&D públicas e privadas, entidades diversas, tais como autarquias, associações sectoriais, entre outras.
O nosso recente estudo incidiu sobre 11 unidades de incubação promovidas e/ou associadas de alguma universidade, evidenciando um retrato expressivo sobre estas infraestruturas portuguesas. Pelo seu significado destaco três aspectos:
1- A entidade promotora mais frequente nas incubadoras analisadas são os BICs (Business Innovation Centers) com 4 incubadoras (3 BICs mais 1 incubadora /BIC sediada num parque Tecnológico), correspondendo a 36,4% do total. Em segundo lugar encontram-se as incubadoras promovidas exclusivamente por Universidades, totalizando 27,3% do total (3 incubadoras), e em terceiro as incubadoras integradas na estrutura de um Parque de Ciência e Tecnologia, somando 18,2% (2 incubadoras).
2- O envolvimento das Universidades nas incubadoras é diverso e diversificado em termos de percentagem de participação no capital da incubadora. Sublinha-se que 60% das incubadoras tem uma participação da universidade inferior a 30%.
3- A maioria das incubadoras de empresas tem alguma orientação sectorial (54,5%), destacando-se a orientação de empresas de base tecnológica.

Qual a relevância das incubadoras portuguesas na economia global?
O movimento das incubadoras de empresas em Portugal está inserido no contexto mundial destas infraestruturas. O que tem ocorrido entre nós é semelhante aos restantes países da União Europeia, e numa outra escala, semelhante ao sucedido nos Estados Unidos da América.

Quais as razões que levaram à emergência das incubadoras de empresas?
As principais razões apontadas pelos especialistas para a emergência das incubadoras de empresas, residem naquilo que poderemos designar por “falhas do mercado” e ainda por causas de natureza integrativa e sistémica, as quais limitam a capacidade das pequenas empresas inovativas de sobreviverem durante os primeiros estágios de vida, e dos empreendedores de ultrapassarem a incerteza e os obstáculos associados ao início das suas empresas. O apoio dos governos da OCDE é dado geralmente ao nível local e regional mas os governos de cada país também podem desempenhar um papel directo e indirecto. Sabe-se que os empreendedores enfrentam muitos desafios ao começarem o negócio, incluindo os substanciais custos de entrada, falta de acesso a fontes de capital próprio, insuficiente informação técnica e de mercado e fracas capacidades de gestão. A fase inicial de um pequeno negócio está associada a uma grande incerteza e risco, evidenciando muitas vezes a nova start-up falhas de cash flow durante este período. O apoio às incubadoras de empresas é, também, providenciado numa base de objectivos de desenvolvimento económico (regional: incentivar a criação de empregos e a reestruturação industrial.

Que desenvolvimentos na envolvência das Universidades no capital das incubadoras se verificaram nos últimos 15 anos?
Como referi anteriormente, o envolvimento das Universidades portuguesas no capital das incubadoras é diverso, sendo maioritariamente reduzido. Apenas duas incubadoras assinalam uma participação da Universidade promotora superior a 65%: a Incubadora CEBI – Centro Empresarial de Biotecnologia da Universidade Católica (Porto) (100%), e a Incubadora da Universidade de Aveiro (100%). Isto revela que, não obstante a crescente tomada de consciência por parte dos dirigentes universitários para o apoio às novas empresas de base tecnológica e ao empreendedorismo, o compromisso das Instituições Universitárias é largamente condicionado. As estratégias das Universidades passam sobretudo por modelos que envolvam parcerias com entidades governamentais (a nível central e local) e empresas (industriais e banca), espelhando uma tendência mundial no sentido do estabelecimento de parcerias e acordos trilaterais com governos e Indústrias. 

O que é que as instituições portuguesas aproveitaram do relatório Porter?
Esta é uma questão ampla e ao mesmo tempo transversal a toda a sociedade e economia. Na sua análise, diagnóstico e recomendações, o “Relatório Porter” traçava as principais características da Indústria portuguesa, analisava os sectores económicos quanto ao seu peso para o PIB e concluía que o modelo ou paradigma da economia e da indústria portuguesa teria de mudar no sentido de uma maior aposta naquilo que designava por novos factores de competitividade – conhecimento e tecnologia. Exigia-se assim, a mudança de paradigma, de um modelo baseado na minimização dos custos dos factores de produção, para um modelo de competitividade assente em sectores altamente especializados.
Penso que é consensual o reconhecimento de que Portugal evoluiu positivamente em muitos aspectos apontados no relatório. As instituições em geral, as universidades em particular bem como o sector empresarial beneficiaram com a intervenção sobre os vários factores integrantes do “Diamante da Vantagem Competitiva” de Porter. Desde logo, a melhoria das condições de concorrência, estrutura e rivalidade interna, devido a que as condições gerais do meio envolvente de uma nação influenciam a forma como as empresas são criadas, geridas e competem. A competitividade desenvolve-se num ambiente que apoia a inovação através de políticas e regras que encorajam o investimento sustentado, a qualificação das pessoas e a criação de riqueza. Mas também uma melhoria nas condições dos factores de produção, da procura, e dos sectores relacionados e de suporte. Neste sentido o “Relatório Porter” não foi em vão!

Biografia:
Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE – Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa, em 1986 e Mestre em Gestão/MBA, pelo ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão, Lisboa, em 1997. Doutorou-se em Gestão Industrial na Universidade de Aveiro em 2005.
É docente do ISCAC – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra desde 1990, nas áreas de Organização e Gestão. É membro do Conselho Científico do ISCAC.
Sendo autor de mais de uma dezena de trabalhos científicos publicados no país e no estrangeiro, os seus interesses centram-se nas áreas de gestão da inovação e da tecnologia e na cooperação universidade – indústria – governo. Publicou A cooperação universidade-indústria e a inovação científica e tecnológica: o caso da Universidade de Coimbra (1998).

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As respostas publicadas podem, em alguns casos, reflectir somente a opinião pessoal do entrevistado, não devendo, como tal, ser associadas às organizações e/ou empresas onde aquele exerça funções.

 


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